quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

FIM DE PAPO

No final da tarde de quarta feira, num boteco carioca, dois idosos, ainda bêbados, criticavam um terceiro companheiro de porre, deitado e largado no chão. Foi uma das últimas cenas do carnaval que passou. Do silêncio nasceu o papo:
- Sinto que estou acabado.
- Olha pro cara aí deitado. Está delirando.Que porre, meu!
- Acho que ele está acabado.
- Acabado sou eu que estou 
- Por quê ?
- Sabe lá o que é sentir a mangueira caindo a cada ano?
- Sei. E até imagino.
- Como? Não começa a complicar, companheiro.
- Companheiro de armas é o que você quer dizer.
As armas dos companheiros
- É verdade, eu havia me esquecido.
- Então, agora eu não sei o que vou fazer.
- Por quê?
- Eu nunca havia pensado que a minha mangueira, um dia, seria derrotada, vilipendiada e . . ..
- Que coisa é essa?
- É coisa da idade.
- Mas eu ainda sou jovem.
- Jovem com sessenta anos? O que você está pensando?
- Estou derrotado com a tal da minha mangueira.
- Pois é!  E eu que nem vi o que aconteceu com a minha mocidade.
- Ué, por quê?
Patroa gostava da mocidade
- Conto com ela há tantos anos. Dei de tudo para que ela, a minha querida mocidade  correspondesse com as minhas expectativas, e olha aí. 
- Tá vendo! A sua mocidade não é mais aquela. . .
- Não! Não é.
- Pensou que iria viver sempre com a sua mocidade?
- Claro, eu amo a minha mocidade.
- Amava!  E quem gostava da sua mocidade era a sua patroa, não era?
- Ela adorava a força da minha mocidade. Em qualquer lugar ela queria que eu mostrasse a ela a minha mocidade na ativa. 
- E ninguém reclamava da pujança da sua mocidade.
- Que nada! Jamais a minha mocidade deixou de corresponder, quando chamada. 
Era grande, forte e. . .dava medo.
- Igual a minha mangueira. E olha que ela perdeu a força e o tamanho, digo comprimento. Ficou mais curta.
- A sua mangueira era grande?
- Era grande, forte, grossa de dar medo, até os quarenta e cinco anos. Depois começou a não dar presença, falhar,  etc.
- Etc, também é bom.
- Bom nada! Agora é só saudade de quem se foi.
- É como a minha mocidade. Aconteceu que um dia, a patroa, ao ver a desgraça que tomou conta da minha mocidade, deu uma sonora gargalhada e passou a chama-la  de anciã.
Uma loira para dois
- É mesmo? A minha cara metade também ficou decepcionada com a minha mangueira e começou a chamá-la de canudinho. Com gargalhadas e tudo mais. É mole? 
- Estamos lamentando o que um dia foi ótimo para nós. Você, sua mulher e a sua querida mangueira em atividade e eu com a minha patroa e com a minha mocidade funcionando a mais de 200 por hora.  
- Vamos parar com esses lamentos e pedir uma loira pra nos dois?
- Não fale assim que pode ofender. O que é que uma loira vem fazer aqui com a gente? 
- Vamos pedir ou não?
- Sonhar sempre é preciso. Agora, sem mangueira e sem a mocidade, tudo vai ficar murcho e sem vida. Essa loira irá gargalhar e tirar o maior sarro de nos dois.
- Nada disso. A loira é a cerveja que pode matar a saudade da mocidade e da mangueira. Só aqui, oh, na lembrança.
- Só assim mesmo. Que venha logo essa loira gostosa de . . . beber!
- Garçom. Manda a ultima rodada, por favor. E que ela venha com muita mocidade na força e dureza na mangueira
Mangueira e Mocidade, na verdade!


 Evidente que o garçom não entendeu aquela forma de pedir uma última cerveja. A saideira! Sorriu, e foi buscar a encomenda para o fim do bate papo dos dois velhacos.
  

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